Carvedilol na prevenção da cardiotoxicidade induzida por antraciclinas

24/08/2018 | 08:33

* Mônica Ávila

remédios e comprimidos
Foto: luchschen / iStock

A sobrevida de pacientes com câncer vem aumentando nos últimos anos devido ao sucesso de sua terapia. Entretanto, o tratamento quimioterápico pode levar a complicações como a cardiotoxicidade.

As antraciclinas, uma medicação quimioterápica muito utilizada no tratamento do câncer de mama, são a principal causa de cardiotoxicidade, principalmente a insuficiência cardíaca. Existem evidências que demonstram que a utilização de medicações cardioprotetoras, como os betabloqueadores, em especial o carvedilol, pode prevenir a cardiotoxicidade. No entanto, essas evidências se baseiam em estudos com amostras pequenas e com limitações em sua metodologia.

O estudo CECCY, desenvolvido no InCor (Instituto do Coração do HCFMUSP) e no Icesp (Instituto de Cardiologia do Estado de São Paulo), foi realizado com o objetivo de avaliar o efeito do carvedilol na prevenção primaria da cardiotoxicidade por antraciclinas.

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Foram incluídas no estudo 200 mulheres com câncer de mama, sem doença cardíaca e com indicação de quimioterapia com antraciclinas. O estudo foi prospectivo, randomizado, duplo-cego e placebo controlado, no qual as pacientes receberam placebo ou carvedilol, durante todo tratamento quimioterápico, com duração de 20 semanas. Durante esse período e ao final do estudo (24 semanas), foi realizada monitorização da cardiotoxicidade, com dosagens de biomarcadores no sangue periférico, troponina I e BNP e realização de ecocardiograma.

O resultado do desfecho primário, definido como queda de fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE), foi semelhante entre os grupos. Houve uma queda modesta nos valores absolutos da FEVE em 0,9% no grupo carvedilol e 1,3% no grupo placebo. Em relação aos biomarcadores, houve um aumento de biomarcadores em ambos os grupos, desde o inicio da quimioterapia. Entretanto, o grupo carvedilol apresentou níveis de troponina I significantemente inferiores em relação ao grupo placebo. Além disso , o grupo carvedilol apresentou um aumento significantemente menor de aparecimento da disfunção diastólica, durante o seguimento, em relação ao grupo placebo. Apresentou ainda tendência a um menor aumento no diâmetro diastólico. Não houve diferenças nos eventos clínicos entre os grupos ou no aparecimento de efeitos colaterais.

Esse estudo é o maior estudo já realizado testando uma medicação cardiovascular na prevenção primária da cardiotoxicidade. Demonstrando que o carvedilol, nesse cenário, pode apresentar um efeito na redução da injúria miocárdica, diminuição no aparecimento da disfunção diastólica e uma tendência a influenciar o processo de remodelamento do ventrículo esquerdo. Todavia, o carvedilol não influenciou a função ventricular, provavelmente pela baixa redução da FEVE e pelo seguimento curto (seis meses) do estudo.

* Médica assistente do Núcleo de Transplante


Referência Bibliográfica

  1. Avila MS, Ayub-Ferreira SM, de Barros Wanderley Junior MR, Cruz FdD, Gonçalves Brandão SM, Carvalho Rigaud VO, Higushi-dos-Santos M, Hajjar LA, Filho RK, Hoff PM, Sahade M, Ferrari MSM, de Paula Costa RL, Mano MS, Bittencourt Viana Cruz CB, Abduch MC, Lofrano Alves MS, Guimaraes GV, Issa VS, Bittencourt MS, Bocchi EA, Carvedilol for Prevention of Chemotherapy Related Cardiotoxicity, Journal of the American College of Cardiology (2018)

    Link para o artigo

    doi: 10.1016/j.jacc.2018.02.049.

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