Como se proteger de infarto ou AVC no inverno

Tomar vacina contra a gripe todo ano, evitar aglomerações e sair para a rua muito bem agasalhado são as regras a seguir para quem corre mais risco

06/08/2018 | 08:31

Infarto em idoso
Foto: Sanjagrujic / iStock

O frio pode matar. É um risco letal mesmo para o indivíduo saudável que é exposto a baixas temperaturas sem estar devidamente agasalhado. Pois o organismo humano entra em hipotermia diante de um frio mais intenso – uma condição em que não consegue manter o próprio corpo aquecido.

Para quem tem aterosclerose ou hipertensão, temperaturas baixas aumentam ainda mais a probabilidade de ocorrência de eventos cardiovasculares, como infarto ou derrame, o chamado AVC (Acidente Vascular Cerebral). Estima-se em mais de 50% o aumento do número de internações, e de mortes por infarto agudo do miocárdio, durante o inverno, em comparação com o verão, observa o cardiologista Luiz Antônio Machado César, diretor da Unidade de Corionariopatias Crônicas. Na entrevista a seguir, o pesquisador explica porque isso acontece e o que fazer para se proteger.

Referência InCor – O tempo mais frio, do inverno, piora a qualidade do ar nas cidades e favorece a disseminação de infecções respiratórias. São elas que estão por trás desse aumento de eventos cardiovasculares?
Dr. Luiz César – São três motivos: um, praticamente confirmado, é o aumento da incidência de infecção respiratória nessa época. E mais infecção está associada com mais infarto. Gripes, viroses, influenza produzem inflamação, que pode causar o rompimento de placas e a obstrução que leva ao infarto. Obviamente, em pessoas que já estão doentes, mesmo que não saibam.

Leia mais: Mantendo a função pulmonar no inverno

Referência InCor – Quem é idoso, mas não tem DCV, corre menos risco de morrer por conta de uma pneumonia?
Dr. Luiz César – Pode ser, mas a infecção também mata na idade mais avançada. Pessoas com mais de 65 anos já correm esse risco. Isso é evidente quando avaliamos populações submetidas à vacina da gripe. É uma relação causal: você protege da gripe, que é uma infecção, e diminui a incidência de infarto na população vacinada. A vacinação contra a gripe é obrigatória para quem tem doença coronária, por isso: porque diminui o risco de infarto.

Referência InCor – E quais os outros fatores de risco de aumento dos infartos no inverno, além das infecções respiratórias?
Dr. Luiz César – O outro fator de risco de infarto é o frio mesmo, porque as proteínas que a gente tem no sangue, que o fazem coagular, ficam mais ativas em temperaturas mais baixas. Além disso, para não deixar o organismo perder calor, produzem vasoconstrição, que reduz o diâmetro dos vasos. E as plaquinhas que estão lá dentro do sangue, quando se inflamam e também com essa contração, levam as proteínas a grudarem nelas e começam o processo para coagular o sangue e, a partir daí, entopem o vaso.

Referência InCor – E qual é o terceiro motivo da alta de eventos cardiovasculares?
Dr. Luiz César – O terceiro motivo são os contrastes térmicos. Por exemplo, se estou num ambiente quente e saio para um local mais frio, as mãos ficam mais geladas. Há um estímulo, o frio, que faz os vasos se contraírem e este reflexo, em pessoas que tem doença do coração, pode levar ao infarto. A constrição dos vasos pode provocar o rompimento de uma placa, se for uma experiência muito intensa de contraste térmico. Mas esta é uma reação individual.

Referência InCor – A faixa a partir de 65 anos de idade, que vocês associam com o risco maior de sofrer eventos cardíacos no inverno, foi apontada por estudos?
Dr. Luiz César – Sim. Quando levantamos diferenças de idade e morte por infarto, comparando estações do ano – como primavera, verão e inverno -, isso fica evidente para quem tem mais de 65 anos. Não vemos distinção entre pessoas de faixas etárias inferiores a essa. E isso é compreensível, porque as pessoas estão com muito mais frequência doentes a partir dessa idade também.

Referência InCor – E quanto aos sexagenários que tem saúde, fazem atividade física, etc., eles correm o mesmo risco?
Dr. Luiz César – Se a pessoa não tiver doença cardiovascular, ela está muito menos suscetível de sofrer um infarto. Tem que ter uma placa de aterosclerose ou várias para que aconteça esse fenômeno. Mas a pessoa pode não saber que está doente. A primeira manifestação de que ela está doente pode ser o infarto.

Referência InCor – Quem é a população de 65 anos mais em risco, neste caso?
Dr. Luiz César – O indivíduo com mais de 65 anos que fume, que tenha pressão alta, diabetes. Essa pessoa está no grupo de risco. Como ele pode se proteger? Tem que tomar vacina todo ano, em primeiro lugar. Segundo, deve evitar aglomerações, onde vírus e bactéria são mais abundantes. Terceiro, se proteger dos contrastes térmicos.

Referência InCor – E quanto ao risco de derrame, em que circunstâncias ele é maior no inverno?
Dr. Luiz César – Essa reação que mencionei da vasoconstrição, por conta do frio, eleva a pressão. Se o indivíduo tem pressão alta, este é um risco. Tanto que os hipertensos são medicados com doses mais altas nessa época, por causa da elevação da pressão. Para ter ideia, em dia de temperatura média de 13 graus é quando mais acontece morte por infarto no Brasil.

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