Controlando complicações nas cirurgias não cardíacas na palma da mão

Versão 2.0 de aplicativo de avaliação de Risco Perioperatório traz novo algoritmo para cirurgia vascular

16/02/2018 | 08:00

Foto: Free-Photos / Pixabay

Uma cirurgia oftalmológica de catarata, teoricamente, é uma das intervenções mais simples que existe. Demora apenas 10 minutos e é feita em consultório, de rotina. No entanto, se o paciente tiver outras doenças como diabetes, ou for idoso com histórico anterior de infarto, ou apresenta insuficiência cardíaca e tem arritmias, essa cirurgia não pode ser feita ambulatorialmente, por causa do risco de complicações inerente ao paciente.

A avaliação perioperatória para cirurgias não cardíacas é indispensável para a prevenção de riscos de complicações, lembra o cardiologista e pesquisador do InCor, Bruno Caramelli. O especialista liderou o Estudo Multicêntrico de Avaliação Perioperatória para cirurgias não cardíacas no Brasil, o Emapo, em 2007, que comparou parâmetros de risco perioperatórios de intervenção cirúrgica brasileira com o método utilizado pelo American College of Physicians (ACP)² e o Índice Revisado de Risco Cardíaco de Lee³.

“Elaboramos o Emapo porque o ACP e os outros algoritmos de risco não contemplavam doenças frequentes aqui no Brasil”, explica Caramelli. Entre as mais comuns, ele cita as valvopatias decorrentes de uma situação endêmica típica do país que é a febre reumática, a qual deixa sequelas no coração. “A inclusão das doenças valvares, em especial a estenose e a insuficiência mitral, que não aparecem nos algoritmos internacionais por estarem, geralmente, relacionadas à doença reumática, é um diferencial do algoritmo Emapo. Ele cita ainda como diferencial do aplicativo as cinco faixas ou categorias de risco contempladas.

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O ACP tem três categorias de risco, entre elas o nível intermediário, que é muito importante por reunir os riscos de complicações cardiovasculares entre 3-15%. O grupo do estudo Emapo considerou esta faixa muito ampla. Podem ser equivalentes dentro dela –em termos de risco — pacientes com risco muito alto (o extremo próximo a 15%) ou muito baixo (o que está próximo a 3%), segundo Caramelli. “Por isso criamos mais duas faixas para compor o nível intermediário do algoritmo Emapo. As cinco categorias permitem uma avaliação mais precisa das chances de complicações cardiovasculares.”

Posteriormente, o grupo criou um aplicativo com algoritmos de avaliação de risco perioperatório (incluindo o Emapo e dois outros algoritmos) para uso dos clínicos, cuja versão 2.0 deve ser liberada nas próximas semanas para download na internet (Apple Store e Google Play). Esta versão inclui um novo algoritmo, específico para pacientes que serão submetidos à cirurgia vascular, que são as intervenções associadas a maior risco de complicações, segundo Caramelli.

Diferenciais do Emapo

Como funciona o aplicativo Risco Perioperatório - Etapa 1 | Imagem: Divulgação
Como funciona o aplicativo Risco Perioperatório - Etapa 2 | Imagem: Divulgação
Como funciona o aplicativo Risco Perioperatório - Conduta | Imagem: Divulgação

Entre as vantagens que o aplicativo Risco Perioperatório oferece, Caramelli destaca o diagrama de fluxo (flow chart) que informa passo-a-passo o que fazer para tratar o paciente após a avaliação perioperatória, contemplando inclusive situação de emergência.

Além de introduzir o quarto algoritmo específico para cirurgia vascular, a versão 2.0 contém os três anteriores, que contemplam as diferentes variáveis que podem afetar cada caso de acordo com os métodos de referência mencionados, quais sejam: o ACP, o Índice Revisado de Risco Cardíaco de Lee e o Emapo.

O pesquisador do aplicativo Risco Perioperatório recomenda que os médicos usem os três algoritmos para avaliação de risco, se a cirurgia não for vascular, caso em que se aplica o quarto algoritmo. E prefiram aquele que apontar o risco maior: “É preferível superestimar o risco para oferecer uma prevenção adequada antes, durante e depois da cirurgia”.

São realizadas anualmente, no Brasil, entre três e quatro milhões de intervenções cirúrgicas. A taxa de mortalidade associada a complicações decorrentes das intervenções varia de 2%, a 3,4%, segundo os dados do Datasus (Departamento de Informática do SUS). A maioria das mortes tem causas cardiovasculares, tais como, embolia de pulmão, derrame e infarto agudo do miocárdio. E costumam ocorrer no terceiro ou quarto dia do pós-operatório.

“Por isso, recomendamos que os pacientes de alto risco fiquem até o terceiro ou quarto dia na UTI”, acrescenta Caramelli. “Porque a maioria dos problemas pós-operatórios ocorre até o quarto dia dentro da UTI, conforme mostrou o nosso levantamento, e outros autores também confirmaram.”

Os índices de risco apresentam vantagens e limitações e, devido à grande diversidade de opções, infere-se que nenhum deles constitui uma ferramenta isenta de erros, informa a 3ª Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Caramelli faz referência ao enfatizar que o índice de risco escolhido na avaliação perioperatória deve complementar e nunca substituir a opinião pessoal do clínico.

 


Referência Bibliográfica

  1. ¹ Pinho C, Grandini PC, Gualandro DM, Calderaro D, Monachini M, Caramelli B. Multicenter study of perioperative evaluation for noncardiac surgeries in Brazil (EMAPO). Clinics (Sao Paulo). 2007;62(1):17-22.

  2. ² Guidelines for assessing and managing the perioperative risk from coronary artery disease associates with major noncardiac surgery. Report of the American College of Physicians. Ann Intern Med. 1997;127:309-12

  3. ³ Revised Cardiac Risk Index, de Lee TH, Marcantonio ER, Mangione CM, Thomas EJ, Polanczyk CA, Cook EF, et al. Derivation and prospective validation of a simple index for prediction of cardiac risk of major noncardiac surgery. Circulation. 1999;100(10):1043-9.et al.,45 o índice desenvolvido pelo American College of Physicians

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