Hipertensão grave pode levar à demência precoce

A alta de pressão persistente compromete funções cognitivas de indivíduos, já a partir dos 50 anos

16/04/2018 | 08:28

medição de pressão
Foto: dolgachov / iStock

Os rins e o coração são os órgãos em evidência quando se estuda os efeitos da hipertensão no organismo humano. Por falta de tratamento, ou uso inadequado da medicação de controle dos níveis de pressão arterial, hipertensos podem desenvolver insuficiência renal e cardíaca. Mas os danos que a pressão alta pode causar ao cérebro, comprometendo funções cognitivas de hipertensos já a partir dos 50 anos, não eram tão conhecidos.

O estudo de avaliação cognitiva associada à hipertensão, realizado pelo grupo de pesquisadores da Unidade Clínica de Hipertensão do InCor, com apoio do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas, é uma investigação que faltava, nesse sentido, comenta o cardiologista Luiz Bortolotto, diretor da Unidade de Hipertensão do InCor.

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Em parceria com o grupo de neurologia do HC, os pesquisadores avaliaram 221 pacientes do InCor, dos quais 150 hipertensos e 71 sem problema de pressão alta, com testes de cognição específico. E constataram que quanto mais grave a hipertensão, pior a função cognitiva do paciente, independentemente da escolaridade e, mesmo, da idade precoce.

A média de idade dos pesquisados era 53 anos. Os idosos não foram incluídos no estudo de propósito. “A ideia era investigar a manifestação precoce dos problemas cognitivos em hipertensos de graus variados”, diz Bortolotto.

Os resultados da pesquisa, que deve dar origem a outros estudos, são inéditos na literatura, observa o cardiologista do InCor. “Estudos anteriores apontavam a associação da hipertensão com perdas cognitivas, mas é a primeira vez que se demonstrou a influência dos níveis de hipertensão mais graves na cognição de pacientes dessa faixa etária, mais jovem.”

A avaliação dos déficits cognitivos foi baseada no teste de origem canadense MOCA (Montreal Cognitive Assessment). A opção pelo Moca foi outra novidade da pesquisa. Além de ser uma ferramenta mais eficaz do que o exame mini-mental, usado tradicionalmente, para avaliar funções cognitivas, o MOCA tem a vantagem de ser mais detalhado, realça Bortolotto: “ E ao mesmo tempo é um teste que pode ser usado em consultório.”

A parceria com a equipe de Neurologia do HC chefiada pelo Dr Ricardo Nitrini, com colaborações importantes do Dr. Ayrton Massaro e da Neuropsicóloga Monica Yasuda, foi fundamental na pesquisa. Além de sugerirem o MOCA para a avaliação dos pacientes, os especialistas orientaram a tradução e adaptação do exame ao estudo brasileiro. E a avaliação dos resultados também foi orientada por eles, lembra o diretor da Unidade de Hipertensão do InCor.

Demência precoce

Sem entrar em detalhes técnicos, Bortolotto explica que o MOCA é fácil de aplicar, apesar de ser mais elaborado e, portanto, fornecer mais dados do que o exame mini-mental. Por exemplo, o paciente tem que desenhar um ponteiro de relógio, colocar as horas, citar nomes de animais de memória, enquanto o exame mini-mental pede que ele se lembre de figuras que acabou de ver e outras questões mais simples. Além do MOCA, foram realizados testes mais elaborados para avaliar quais funções estavam comprometidas.

A classificação da hipertensão adotada no estudo seguiu a diretriz americana, que leva em conta os níveis de pressão e o número de remédios usados no tratamento. Foi com base nesse critério que os pesquisadores detectaram que quanto maior o nível de hipertensão, quanto mais grave o quadro do paciente, pior a cognição. As funções cognitivas mais alteradas, de acordo com os testes, foram memória e função executiva, que envolve a capacidade de organização e planejamento.

Os dois déficits indicam o desenvolvimento de demência em um estágio precoce, uma vez que a média de idade dos indivíduos estudados era de 53 anos. Segundo estudos de revisão internacionais, a prevalência de demência em pessoas com 65 anos ou mais é maior na América Latina, comparativamente ao resto do mundo. No Brasil, a incidência de problemas cognitivos moderados afeta mais de13 indivíduos, em cada grupo de 1000 pessoas com 65 anos.de idade ou mais.


Referência Bibliográfica

  1. Muela et al. Hypertension Severity and Cognitive Performance, J Am Heart Assoc. 2017;6:e004579. DOI: 10.1161/JAHA.116.004579

     

     

  2. Chaves ML, Camozzato AL, Godinho C, Piazenski I, Kaye J. Incidence of mild cognitive impairment and Alzheimer disease in Southern Brazil. J Geriatr Psychiatry Neurol. 2009;22:181–187.

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