Mudança de paradigma

Diminuir inflamação em populações de alto risco, reduz significativamente eventos cardiovasculares

05/04/2018 | 08:00

Coração
Foto: Dr_Microbe / iStock


José C. Nicolau *

Há muito se sabe que a inflamação tem um papel preponderante no desenvolvimento da doença aterosclerótica – um processo que causa obstrução das artérias do organismo e pode levar ao infarto agudo do miocárdio (oclusão coronária responsável pela morte do músculo cardíaco na região por ela irrigada).

Vários estudos que visaram controlar esses eventos clínicos com diversos tipos de anti-inflamatórios não mostraram resultados positivos. Neste sentido, o estudo CANTOS, recentemente publicado na revista New England Journal of Medicine e do qual sou um dos autores, representa uma mudança de paradigma.

O CANTOS testou um novo anti-inflamatório (canakinumab) que é utilizado de forma injetável, subcutânea, a cada 3 meses, contra placebo. Foram incluídos mais de 10.000 pacientes com infarto do miocárdio prévio e atividade inflamatória persistentemente alta. A meta principal do estudo era analisar a incidência de infarto não fatal, acidente vascular cerebral (“derrame”) não fatal ou óbito cardiovascular aos dois anos de seguimento.

O resultado deste seguimento foi a diminuição altamente significativa de 15%, quanto a meta principal, quando comparada a dose de 150 mg de canakinumab com placebo. A hospitalização por angina instável com necessidade de revascularização teve redução ainda mais impactante: 56% a menos.

Importante salientar que esses resultados foram totalmente independentes dos níveis de colesterol, já que o canakinumab não teve qualquer influência nesse parâmetro — ao contrário da inflamação, que como esperado diminuiu de forma importante com o uso do medicamento.

É interessante se notar, ainda, que apesar de o estudo não ter sido desenhado para testar essa hipótese, houve uma diminuição muito significativa também na incidência de óbito por câncer.

Em conclusão, o estudo CANTOS demonstrou pela primeira vez na literatura que diminuir inflamação em populações de alto risco, reduz significativamente eventos cardiovasculares, sendo esse um potencial “caminho” adicional no tratamento desses pacientes.

Cardiologista e Diretor da Unidade Clínica de Coronariopatias Agudas do InCor.


Referência Bibliográfica

  1. Ridker et al, N Engl J Med 2017;377:1119-31

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