Nova geração de cigarros traz desafios para o tratamento do tabagismo

15/02/2019 | 15:28

*Jaqueline Scholz, Tânia Ogawa Abe , Patrícia V. Gaya
** Ubiratan de Paula Santos, Stella Regina Martins, Gustavo F. Prado, Rafael Futoshi Mizutani

O Brasil é reconhecido como um país exitoso no combate ao tabagismo. Isso se deve, em larga medida, à existência de políticas de saúde pública severas contra o fumo no País, amparadas numa comunidade médica e acadêmica vigorosa e combativa, que foi capaz de responder prontamente aos desafios do Brasil na pesquisa dos malefícios e de terapias eficazes no combate a essa doença que é sabidamente a causa primária de infarto, doença pulmonar obstrutiva crônica e uma série de cânceres.

Como testemunha e um dos protagonistas dessa história, o Programa de Tabagismo do InCor vê com grande preocupação o surgimento no mercado da nova geração de cigarros, constituída dos cigarros eletrônico e o aquecido.

Isso porque “esses cigarros do século 21” estão sendo trabalhados pelo marketing das indústrias fumageiras exatamente como o cigarro comum era apresentado para a sociedade até a década de 1980 no mundo: um produto inofensivo para a saúde, seguro, além de relaxante, socializante e capaz de renovar o prazer a cada tragada.

É a velha estratégia de mudar para continuar o mesmo, com o agravante de que não existem pesquisas científicas que deem aval a essa posição de mercado cujo único propósito é incentivar adultos a manterem o vício e milhões de jovens a se tornarem tabagistas num grau de dependência nunca antes visto pelos médicos, segundo experiências internacionais.

Nos EUA, especialistas em comportamento compulsivo estão numa árdua luta para descobrir como tratar os adolescentes que se tornaram dependentes dessa nicotina, muito mais potente e com maior poder de adicção, liberada pelo cigarro eletrônico (1).

A saúde pública daquele país se depara com a triste realidade de adolescentes que não fumavam e que hoje, dependentes desse vaporizadores, são altamente impermeáveis aos tratamentos para a cessação do tabagismo baseados em evidência científica, conhecidos até o momento (1).

Segundo a literatura científica, observa-se que grande parte dos usuários desses produtos no mundo faz uso também de cigarro tradicional, com maior exposição às substâncias tóxicas, com possível pior desfecho na prevalência e gravidade das doenças tabaco relacionadas ao vício.

Os que conseguem parar de fumar o cigarro tradicional permanecem dependentes da nicotina dos vaporizadores e expostos a várias substâncias tóxicas presentes nesses dispositivos. Em última instância, a indústria do tabaco continua com seu lucro e quem paga a conta é a saúde pública.

A comercialização, a importação e a propaganda de qualquer dispositivo eletrônico para fumar, entre eles, o cigarro eletrônico e o tabaco aquecido, estão proibidos pela Anvisa no Brasil, desde 2009 (RDC 46). O motivo é não haver evidência científica de que esses produtos ajudam na cessação do tabagismo (entenda-se tratamento da dependência à nicotina), somada ao fato de eles serem nocivos e um risco iminente à saúde.

O que, de fato, é amplamente comprovado pela ciência é que a nicotina é uma droga que, além de causar dependência de difícil tratamento, tem efeitos cardiovasculares comprovados como o aumento de pressão arterial e da frequência cardíaca e lesões nas paredes das artérias. Portanto, mente descaradamente quem afirma que a nicotina é inócua e uma boa estratégia para redução de danos do tabagismo.

Marketing agressivo

Um informe publicitário da Philip Morris, publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, em 12 de novembro de 2018, exemplifica muito bem o esforço brutal do marketing da indústria fumageira em convencer a população e médicos desavisados da segurança do cigarro eletrônico e do aquecido, na redução de danos do tabagismo.

Em determinada altura desse informe travestido de matéria jornalística, um médico “entrevistado” dá a seguinte declaração: “Espero que a classe médica se solidarize e invista nesta área“. Baseado em quê, Doutor, nós perguntamos?

O argumento da indústria, não comprovado cientificamente, é que, ao ter menos produtos tóxicos que o cigarro comum, os novos dispositivos representariam um risco menor de doenças ou até mesmo seriam ausentes desse risco.

A tese mostra-se frágil a um olhar mais atento, uma vez que o fato de o produto ter menos substâncias tóxicas que o cigarro convencional não leva à conclusão de que as substâncias ainda presentes não representem qualquer risco à saúde.

Há o agravante também de esses produtos terem se mostrado ainda mais poderosos em seu efeito viciante na nicotina, escravizando seus usuários como consumidores adictos do produto, que é o sonho do negócio de toda empresa.

A PMI investiu mais de US$ 4,5 bilhões em duas instalações na Suíça e em Singapura, ambas voltadas para a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos ditos “menos prejudiciais à saúde” (2). Por óbvio, pretendem reaver o investimento com juros.

E para vender seus novos produtos, a indústria do tabaco dá um tiro no próprio pé, ao apresentar agora como vilão o cigarro convencional que, décadas atrás, ela defendia com unhas e dentes como sendo um produto inofensivo para a saúde e totalmente desvinculado de doenças.

Assim como no passado, a indústria acoberta agora os malefícios dos cigarros do século XXI com milhões de dólares em marketing e publicidade, tentando convencer a todos nós de que agora, sim, eles chegarem a um produto totalmente seguro.

Que a população, ainda mal informada, acredite nesse argumento é algo que se pode compreender. Difícil é aceitar que a classe médica compre esse argumento altamente questionado cientificamente.

Exemplo da OMS

Em mais uma tacada de marketing, a Philips Morris anunciou em 2017 seu apoio à “Fundação para um mundo livre de fumaça”, uma entidade com grave conflito de interesse com a comunidade médica e científica, uma vez que ela é mantida pela indústria do tabaco. Por meio dessa Fundação, es empresas fumageiras tentam cooptar vários profissionais da saúde para a defesa dos seus propósitos.

Em 2018 a entidade tentou ingressar na Organização Mundial da Saúde (OMS), mas a Assembleia Geral da ONU reconheceu um “conflito fundamental de interesses entre a indústria do tabaco e a saúde pública, ferindo o artigo 5.3 da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco”(3), (4).

A OMS declarou que “não se envolve com a indústria do tabaco ou atores não estatais que trabalham para promover os interesses da indústria do tabaco” (3) . Na realidade o que a OMS e a saúde pública tentam evitar é “um mundo repleto de fumaça e vapor”.

A coerência e o exemplo da OMS deveriam ser seguidos por todo profissional de saúde ligado ou não ao controle do tabagismo. Isso porque a única verdade científica que a classe médica reconhece é a do incentivo para que os pacientes parem de fumar definitivamente.

Isso, sim, reduz o risco à saúde e liberta o paciente da dependência da nicotina.

É nessa direção que a ciência tem avançado a passo largos no entendimento da dependência da nicotina, como um recurso para a descoberta de novas terapias. Recentes estudos genéticos mostram-se promissores para identificar fumantes com maior ou menor dependência, como forma de balizar o arsenal terapêutico que o médico deve empregar no tratamento.

Pesquisa genética em andamento no InCor resultou até o momento em 117 voluntários que pararam de fumar com 12 semanas de tratamento, num universo de 161 pacientes tratados. Isso representa perto de 70% de sucesso. Uma marca extraordinária, que mostra o grande manancial de conhecimento que se descortina para vencermos a batalha contra o tabagismo.

Frente a esses avanços, é evidente que o incentivo à criação de uma política de redução de danos do tabagismo no Brasil, e no mundo, a partir desses novos produtos da indústria fumageira, não é uma questão de saúde pública de interesse do Estado e da população. É antes de tudo uma estratégia de mercado global da indústria fumageira, mais interessada em seus lucros do que na saúde de seus consumidores.

É missão da academia e da comunidade médica esclarecer a sociedade quanto ao risco que corremos.

É compromisso do médico manter sua isenção e credibilidade frente aos interesses do mercado, defendendo aquilo que é melhor para o seu paciente.

Dentro dessa linha de raciocínio, sua associação com a indústria fumageira, em qualquer nível, caracteriza-se como um agravo a essa missão.

Programa de Tratamento do Tabagismo
* Área Cardiologia
** Área Pneumologia


Referência Bibliográfica

  1. Não há cura para adolescentes viciados em vaporizadores – Internacional – Estadão [Internet]. [citado 5 de fevereiro de 2019]. Disponível em: https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,nao-ha-cura-para-adolescentes-viciados-em-vaporizadores,70002685056

  2. Open letter from Philip Morris International CEO – POLITICO [Internet]. [citado 5 de fevereiro de 2019]. Disponível em: https://www.politico.eu/sponsored-content/open-letter-from-philip-morris-international-ceo/

  3. WHO Statement on Philip Morris funded Foundation for a Smoke-Free World [Internet]. [citado 5 de fevereiro de 2019]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/detail/28-09-2017-who-statement-on-philip-morris-funded-foundation-for-a-smoke-free-world

  4. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Convenção -Quadro para o Controle do Tabaco – texto oficial. Rio de Janeiro; 2011.

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