O coração feminino sob ataque cardíaco

Mulheres levam mais tempo para desenvolver doenças cardiovasculares, mas correm mais risco de morrer de um infarto do que os homens

26/03/2018 | 09:15

Médico está usando um estetoscópio para exame paciente mulher
Foto: Sitthiphong / iStock

As doenças cardiovasculares, conhecidas abreviadamente como DCVs, são as principais causas de morte no Brasil. Homens e mulheres estão igualmente sujeitos a morrer por causa de problemas do coração, entre eles o tão temido infarto, com o passar do tempo. A diferença entre os gêneros, quanto à mortalidade por DCVs, é o tempo, justamente, que conta a favor das mulheres, neste caso.

O cardiologista Antonio Mansur, autor de vários estudos envolvendo o coração das mulheres, explica que nelas a Doença Arterial Coronariana (DAC), por exemplo, caracterizada pela obstrução das coronárias, aparece geralmente sete a 10 anos depois que os homens passam a apresentá-la. Enquanto eles ficam doentes a partir dos 50-55 anos, elas irão manifestar o mesmo problema depois dos 65 anos.

Leia mais: TV Referência: mulher infarta?

A desvantagem das mulheres em relação aos homens é a letalidade maior a que estão sujeitas quando tem um problema cardíaco grave como um infarto. O risco de morte durante uma hospitalização por infarto é sempre maior entre elas do que entre eles, segundo estudo internacional comparativo, de 1999¹, especialmente quanto mais perto estiverem dos 50-60 anos. O estudo comparou homens e mulheres de 50 anos em diante, hospitalizados por causa de ataque cardíaco. O porquê dessa letalidade maior não se sabe. Segundo Mansur, por falta de estudos.

A hipótese mais forte para explicar a diferença em favor das mulheres para o desenvolvimento de doenças do coração é o estrógeno, hormônio que predomina no organismo feminino até a chegada da menopausa.

Os efeitos benéficos dos estrógenos no sistema cardiovascular já foram observados em uma variedade de pesquisas, lembra Mansur.

O hormônio teria ação sobre os níveis de gordura no sangue (colesterol), melhorando o HDL que é a gordura boa; e também faria um efeito sobre a integridade do endotélio, a camada interna que reveste os vasos. Por isso as DCVs só começam a aparecer nas mulheres cerca de uma década após a menopausa (última menstruação).

Um exemplo dessa diferença, segundo o cardiologista, é a definição de antecedentes familiares para a DAC. Consideram-se antecedentes familiares quando algum familiar direto (pai, mãe e irmãos) teve DAC com menos de 55 anos para os homens e de 65 anos para as mulheres.

Algumas características fisiopatológicas do processo da aterosclerose também seriam diferentes na mulher, em razão da proteção hormonal anterior à menopausa. “O processo é menos intenso, forma placas menores e em menor quantidade”, explica o pesquisador.

Doença coronária estável - gráfico

Fatores de Risco, Tabagismo e HDL baixo

Alguns fatores de risco para infarto são muito importantes, porém, tanto nos homens quanto nas mulheres, como hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes e o tabagismo. “Em um estudo² com mulheres jovens com DAC, que sofreram um infarto com menos de 55 anos — idade em que não se espera esse tipo de evento – observou-se a presença de um maior número de fatores de risco. E em outra análise realizada duas variáveis se destacaram: o tabagismo e o HDL baixo”, esclarece Mansur.

A diferença das mulheres sob um ataque cardíaco, que merece especial atenção, é a manifestação dos sintomas. Ao contrário dos homens, que sentem dor fulminante no peito e formigamento no braço esquerdo na fase aguda do evento cardíaco, elas podem apresentar sintomas atípicos como falta de ar, cansaço, tontura, náuseas e vômitos. “Dai, pensam que não é nada de mais ao invés de procurar atendimento médico”, afirma Mansur. E esse tempo perdido na indecisão sobre a busca de auxílio médico pode comprometer sua perspectiva de sobrevivência.

Saiba mais assistindo a entrevista sobre a experiência de infarto da professora universitária Célia Maria Dias, ex-paciente do InCor.


Referência Bibliográfica

  1. ¹Vaccarino V et al. Sex-Based Differences in Early Mortality after Myocardial Infarction, New England Journal of Medicine 1999; 341:217-225

  2. ²A.P. Mansur et al. Clustering of traditional risk factors and precocity of coronary disease in women/ International Journal of Cardiology 81 (2001) 205 –209

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