O peso do exercício físico no tratamento do câncer e das doenças cardíacas

Ao levar o organismo como um todo a funcionar melhor a atividade física aumenta a expectativa de vida inclusive das pessoas que tem fatores de risco

02/04/2018 | 08:01

Casal andando de bicicleta
Foto: bowdenimages / iStock

O efeito terapêutico do exercício em pacientes com doença cardiovascular e câncer é o tema principal de pesquisa do professor Carlos Eduardo Negrão, responsável pela Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício do InCor. Há 25 anos ele vem utilizando esta abordagem, não medicamentosa, no tratamento de pacientes com doença cardiovascular.

Na entrevista a seguir, baseado em seus achados de pesquisa, Negrão explica como a prática regular de exercícios aeróbicos, 30 a 40 minutos, três vezes por semana, associada a exercícios de resistência muscular localizada, melhoram a pressão arterial, o diabetes e o perfil lipídico. E contribui para a prevenção de doenças em quem é saudável e tem por hábito praticar alguma atividade no dia-a-dia.

Referência InCor: O que a ciência ensina sobre a prática de atividade física e prevenção de doenças cardiovasculares?

Carlos Negrão: As pessoas que fazem atividade física tendem a ter uma vida mais longa sem eventos cardiovasculares. Se fizermos um levantamento ao longo do tempo veremos que pessoas que fazem atividade física têm menor risco de morte, em torno de 10 a 15 anos. Isso é o que temos hoje na literatura. E é uma evidência bem aceita mundialmente. Ela vale inclusive para um indivíduo que tem fatores de risco, como obesidade, hipertensão e diabetes.

Referência InCor: Estamos falando de um contexto onde exercício físico é um hábito regular, certo? Como deve ser esse hábito?

Carlos Negrão: O melhor modelo é utilizar um programa de exercício físico regular, de 3 a 5 vezes por semana. Como isso não é viável para as pessoas, muitas vezes, o importante é procurar levar uma vida ativa ao longo do dia, que inclua subir mais escadas, caminhar antes do trabalho e ficar menos tempo sentado, preferindo fazer as atividades profissionais em pé. Atitudes desse tipo tem se mostrado importantes na prevenção de doenças, embora elas não substituam o benefício de um programa de exercício físico regular.

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Referência InCor: O senhor tem dados recentes dos efeitos do exercício físico regular em pacientes com doenças cardiovasculares?

Carlos Negrão: Só tenho tido resultados importantes, ao longo dos 25 anos que venho trabalhando com o exercício físico como uma conduta não medicamentosa para pacientes com doença cardiovascular. E estamos começando a ver resultados benéficos da atividade física também nos pacientes de câncer, que é outra área de pesquisa a que nos dedicamos hoje. O paciente que tem câncer pode evoluir para uma doença cardiovascular por causa do tratamento e da própria doença. E o exercício, como forma adjuvante do tratamento oncológico, pode melhorar a qualidade de vida desse paciente.

Referência Incor: Poderia citar exemplos de resultados?

Carlos Negrão: Nossa experiência mais importante publicada na literatura foi o tratamento da obesidade, com exercício associado à dieta. Os participantes do estudo perderam 10 quilos em quatro meses, e o mais importante é que a atividade preservou a massa muscular, que é o grande problema das dietas em geral. Sem a associação com atividade física a pessoa perde gordura e, também, massa muscular.

Referência Incor: Como o exercício beneficia o paciente que tem diabetes e colesterol alto ou dislipidemia?

Carlos Negrão: A atividade física aumenta o HDL, que é o bom colesterol e também eleva a velocidade de entrada e saída do LDL na circulação. Com isso, ele fica menos tempo na circulação e se torna menos aterogênico, o que significa que provoca menos agressão aos vasos sanguíneos e diminui o risco de aterosclerose. No paciente com diabetes, o exercício melhora a ação da insulina. Isto é, ele retira a glicose da circulação e leva para dentro da célula.

Referência Incor: Voltando às pesquisas e aos benefícios da atividade física, o que a literatura vem testando de novo quanto à intensidade do exercício para prevenir doenças cardiovasculares?

Carlos Negrão: O que utilizamos é uma atividade com intensidade moderada, equivalente a 60-70% da capacidade máxima. Nos últimos anos, porém, surgiu na literatura a ideia de que fazer atividades mais intensas levaria a melhores resultados. Foram publicados alguns trabalhos importantes a esse respeito. A intensidade do exercício referido na literatura intercala exercício moderado e de alta intensidade dentro de uma mesma sessão. Por exemplo, três minutos de corrida lenta (intensidade moderada) alternados com três minutos de corrida mais rápida (alta intensidade). Alguns defendem que essa dinâmica leva a um resultado melhor do que o exercício moderado prolongado. Estamos estudando isso ainda.

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Referência Incor: O que seria intensidade alta e que tipo de atividade atinge esse patamar?

Carlos Negrão: A alta intensidade é estimada em torno de 80% a 90% da capacidade máxima, de forma individualizada. Para algumas pessoas basta correr normalmente para atingir essa intensidade alta, enquanto para outras é necessário correr muito forte para chegar à alta intensidade. Varia de pessoa para pessoa, por isso que é individualizada. O teste ergoespirométrico vai revelar essa medida. Nosso grupo terá esse resultado em breve, temos um pós-doutorando fazendo a pesquisa.

Referência Incor: O que é o teste ergoespirométrico? E o que você recomenda para quem quer realizar uma atividade regular e não pode fazer esse teste?

Carlos Negrão: Para quem tem mais de 35 anos e vai participar de um programa de exercício é recomendado um teste de esforço, de preferência a ergoespirometria, para saber qual é a sua resposta ao esforço físico. Não aconselho pessoas com mais de 35 anos a adotar um programa de exercício físico regular, moderado ou intenso, sem fazer essa avaliação prévia. O teste ergoespirométrico monitora vários parâmetros: eletrocardiograma, pressão arterial, batimentos cardíacos, ventilação pulmonar e resposta metabólica, que são indicadores importantes para determinar a tolerância ao esforço e a intensidade do exercício indicada para cada um.

Referência Incor: Quando você fala de atividade física de baixa e alta intensidade está considerando apenas os exercícios aeróbicos ou a musculação também está contemplada?

Carlos Negrão: A musculação é importante. Ela complementa uma sessão de exercício aeróbico. Mas é preciso atentar para o fato de que não há necessidade de fazer exercícios com cargas excessivas para melhorar a massa muscular. Cargas moderadas favorecem o ganho de massa muscular sem provocar elevação excessiva na pressão arterial, o que é um cuidado com aqueles que sofrem de hipertensão arterial. Nossos estudos mostram que o exercício aeróbico por 30 ou 40 minutos, associados com exercícios de resistência muscular localizada até 50-60% da capacidade máxima são excelentes para melhorar a condição de saúde e a qualidade de vida.

Referência Incor: Poderia exemplificar essa capacidade máxima para dar uma ideia a quem não fizer a avaliação?

Carlos Negrão: Quando a pessoa tolera bem 10 a 15 repetições de um exercício com peso, pode-se dizer que o exercício é adequado para ela. Ao contrário, se há dificuldade de tolerar o exercício a partir de 10 repetições, significa que a carga está muito elevada. Os níveis de pressão arterial atingidos quando a carga é inadequada podem ser alarmantes, em torno de 270 por 120 mmHg. Para que expor a pessoa a esses níveis? Em termos de cuidados recomendamos uma avaliação antes de iniciar um programa de exercício físico. É indicado procurar um cardiologista ou um médico para orientá-lo e, em seguida, um profissional de educação física que irá programar os exercícios.

Referência Incor: E se a pessoa não tem recursos ou condições de acesso a esses profissionais, o que ela pode fazer por conta própria, sem risco?

Carlos Negrão: Caminhar não faz mal a ninguém. Andar regularmente, durante 40, 50 minutos, com certeza é benéfico para a saúde de qualquer pessoa. A caminhada feita com regularidade, três a cinco vezes por semana, leva à diminuição do trabalho cardíaco — as pessoas ficam com uma frequência cardíaca mais baixa. E, como disse anteriormente, a atividade física melhora o metabolismo das gorduras, os níveis de pressão arterial, a função respiratória e a ação da insulina, levando o organismo como um todo a funcionar melhor e a ganhar mais anos de vida.

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