Os 50 anos do transplante cardíaco

Pesquisa de drogas para conter a rejeição ao órgão transplantado e o desenvolvimento de corações artificiais que mantém vivos os pacientes à espera da doação foram os principais avanços ao longo dessa história

16/07/2018 | 00:02

Equipe do primeiro transplante cardiaco-brasil-19681
Foto: Museu FMUSP/Arquivo

Em 26 de maio de 1968, cinquenta anos atrás, a equipe do cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini realizou o primeiro transplante do coração do Brasil, no HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Fazia apenas cinco meses que a primeira cirurgia do gênero havia acontecido no mundo. A equipe de Zerbini trocou o coração doente do boiadeiro João Ferreira da Cunha pelo órgão saudável de Luís Ferreira Barros, vítima de um acidente que tivera a morte cerebral declarada na noite anterior.

A cirurgia foi realizada no HC. O InCor só seria inaugurado nove anos depois, em 1977, muito em função dessa expertise dos cardiologistas da USP com a pesquisa cirúrgica em cardiologia, a qual culminou no primeiro transplante cardíaco brasileiro.

O mérito pelo primeiro procedimento no mundo coube ao médico Christian Barnard, da cidade do Cabo, na África do Sul. Ele aprendeu as técnicas com o transplante em animais, como pesquisador visitante da equipe do professor Edward Shumway, da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

O paciente do Dr Barnard viveu 18 dias com o novo coração, vindo a falecer de uma infecção associada à rejeição do órgão transplantado. Problemas de rejeição também levaram o paciente do professor Zerbini à morte, 28 dias depois da cirurgia. Foi por causa da rejeição, inclusive, que os transplantes cardíacos foram interrompidos no país, e praticamente no mundo todo, no início da década de 1970.

Foi somente na década de 1980 que os programas de transplante de coração foram retomados, inclusive no então recém-inaugurado Instituto do Coração do HCFMUSP. O surgimento da ciclosporina — droga que combate a rejeição do organismo ao implante de órgãos estranhos, ou seja, transplantados, permitiu a continuidade dessa prática.

Ao longo dos últimos 50 anos, o mundo fez de 140 a 150 mil transplantes de coração, e o Brasil, entre 4500 a 5000 dessas cirurgias, observa o diretor da Divisão de Cirurgia Cardiovascular do InCor, Dr. Fabio Jatene. “Nos últimos 10 anos, a média de transplantes de coração realizados no país foi de 280 por ano. E ela vem aumentando”, diz o cirurgião do InCor, ao observar que no último ano foram feitos 380 transplantes no país.

TV Referência InCor: depoimentos de alguns dos médicos que presenciaram o primeiro transplante de coração do Brasil

Controle da rejeição

Quanto às técnicas cirúrgicas, de acordo com Fabio Jatene, a evolução não chegou ao ponto de mudar radicalmente o procedimento nas últimas décadas. “Baseadas nas suturas e conexão de alguns vasos (anastomoses), as técnicas são basicamente as mesmas do início do procedimento, com conexão entre os átrios e artérias do receptor e do órgão transplantado, apenas com algumas mudanças em relação ao local da sutura, técnica de anastomose, e outras modificações que não tiveram nenhum impacto maior”. Durante o procedimento, o paciente é mantido vivo graças a um coração e pulmão artificiais, durante o tempo que for necessário para que o coração seja retirado e o novo órgão, o enxerto, seja implantado.

O que teve impacto na retomada e no desenvolvimento dos transplantes nas últimos 50 anos, segundo o cirurgião, foram descobertas de substâncias para preservar o coração a ser transplantado ou evitar a sua rejeição pelo corpo humano. Nas primeiras cirurgias não existiam ainda boas substâncias para preservar o coração doado, que não pode ficar muito tempo sem funcionar, receber oxigênio, porque se deteriora.

“Foram soluções e substâncias que desenvolvemos ao longo dos anos e que nos permitem, hoje, manter órgãos aguardando implante até quatro horas sem trabalhar, sem receber sangue. Isso é muito importante, porque viabiliza a busca de órgãos, por avião, ou ambulância, em locais mais distantes do centro de transplante. E, de fato, devido a estas substâncias que preservam o coração, buscamos órgãos em lugares cada vez mais remotos.”

Outro grande desenvolvimento nestes 50 anos de transplante do coração foram as drogas contra rejeição. Surgiram uma variedade de medicamentos mais eficientes para evitar que o organismo do paciente transplantado atacasse o órgão, desde a descoberta da ciclosporina.

Todos os órgãos transplantados são rejeitados pelo corpo, e para que isso não aconteça, é preciso administrar aos pacientes substâncias em uma proporção tal que elas sejam eficazes contra essa agressão do próprio organismo e, ao mesmo tempo, não deixem o indivíduo vulnerável à infecção.

Esse é um equilíbrio delicado, que deve ser acompanho de perto pelo médico, explica Jatene. “Quanto mais medicamentos contra rejeição administramos, menor é a probabilidade de o organismo do paciente transplantado rejeitar o órgão, mas, por outro lado, maior será a possibilidade da ocorrência de infecções, surgimento de tumores, entre outras reações danosas.” Isso porque, ao agir para diminuir a sensibilidade do sistema imunológico ao órgão transplantado, os imunossupressores, como o próprio nome diz, debilitam a capacidade desse sistema de combater outros agentes agressores do organismo.

“Houve um aprimoramento progressivo desses remédios e hoje, eles previnem melhor a rejeição e não enfraquecem tanto o organismo, não o deixando sem defesas frente às infecções ou ao desenvolvimento de tumores. São medicamentos que a pessoa tem de tomar para o resto da vida.”

Os imunossupressores modernos são medicamentos mais eficientes, sem dúvida, e também mais caros, em função do custo das pesquisas da indústria para desenvolvê-los. O Ministério da Saúde tem atuado, juntamente com as entidades de transplante de órgãos, para tentar viabilizar o acesso dos pacientes às melhores drogas possíveis, segundo Jatene.

Corações artificiais

Em relação à evolução dos transplantes, ainda, vale destacar o desenvolvimento de equipamentos conhecidos como ventrículos, ou corações, artificiais, que ajudam o indivíduo a se manter vivo e em boas condições para aguardar o transplante. “Pacientes que entram na fila de espera estão com seus corações em fase muito avançada da doença e em alguns casos, se estes corações não forem auxiliados, o indivíduo não consegue sobreviver”, diz o cirurgião.

É comum o paciente estar aguardando um coração, na lista de espera, mas não aparecer o órgão. “É nessa condição que são colocados esses aparelhos, assim como no caso de o paciente ter contraindicação para o transplante”.

De acordo com Jatene, os corações artificiais são cada vez mais utilizados. “No mundo inteiro, praticamente 50% dos pacientes que são submetidos ao transplante usam antes esse aparelho”. São pacientes que chegaram a uma condição tal que morreriam antes de realizar o transplante, caso não tivessem recebido o aparelho.

No InCor, existem ventrículos artificiais para serem empregados por dias, ou semanas, dentro do hospital, que são dos modelos menos complexos, e também, embora em menor número, os mais modernos, totalmente implantáveis e que podem permanecer em funcionamento por maior tempo. “Ainda não usamos em larga escala no Brasil esses aparelhos mais modernos devido ao custo deles, que gira em torno de R$ 600 mil”.

Nos países desenvolvidos, ao contrário do Brasil, os equipamentos disponíveis que mais são utilizados são esses de última geração. Os pacientes que recebem esses aparelhos ficam com eles por semanas, meses ou alguns anos, na espera do órgão ou, quando há contraindicação para o transplante, pelo resto de suas vidas. “A existência dos corações artificiais, juntamente com as novas medicações representam, hoje, a meu ver o maior avanço em relação aos transplantes”.

Com esses aparelhos mais modernos implantados, explica Jatene, os pacientes podem ir para casa e levar uma vida relativamente normal. Ao mesmo tempo em que têm suas condições orgânicas preservadas, como as funções do rim, do pulmão e as neurológicas, o paciente, nessa condição, tem seu estado emocional protegido também, uma vez que permanece inserido em seu ambiente familiar e social, durante a espera. “São condições extremamente promissoras para o resultado da cirurgia e para a recuperação pós-operatória imediata e tardia”.

Resultados como esse alimentam a expectativa da comunidade médica de que se possa utilizar cada vez mais no Brasil esses corações artificiais de última geração em pacientes em fila de espera e que estejam em estado crítico. Nesse sentido, o InCor tem mantido constante diálogo com o Ministério da Saúde, ao lado de outras instituições médicas, como o Hospital Sírio Libanês, para sensibilizar a equipe técnica da boa relação custo-benefício do uso dessa tecnologia para o sistema de saúde.

Outra boa notícia, na visão de Jatene, é que o Brasil está avançando continuamente em sua capacidade de realizar o transplante de coração. Temos sete centros no Brasil todo que realizam mais de 20 desse tipo de transplantes por ano”.

A demanda é bem maior do que isso, naturalmente. “Atendemos menos de 25% daqueles que necessitam”, ele diz, mas com mais recursos e doações de órgãos poderemos ir bem mais adiante. “O nível da nossa cardiologia é comparado aos melhores centros do mundo. Temos plenas condições de realizar os procedimentos mais complexos”. Prova disso é que o InCor ocupa hoje a 7ª posição entre os centros que mais realizam transplante do coração no mundo.

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