Reações psicológicas diante da possibilidade de morte no contexto hospitalar

04/09/2018 | 17:25

*Andrea Torres

paciente e acompanhante no hospital
Foto: KatarzynaBialasiewicz / iStock

Embora a morte seja a única certeza que tenhamos, essa realidade parece ser esquecida no nosso viver cotidiano, entremeado pelos afazeres diários. Quando alguém próximo a nós adoece de uma patologia grave e potencialmente fatal, como são as cardiopatias, forçosamente o tema do fim da vida passa a rondar nosso imaginário e diversas reações psíquicas aparecem: ansiedade, raiva, medo, apreensão, tristeza.

Historicamente foram várias as maneiras com que os homens lidaram com a morte, suas representações e significados. Durante séculos no mundo ocidental, a morte ocorreu em casa, sendo presenciada por familiares e comunidade, que eram praticamente espectadores desse imperativo da natureza, pois os recursos e saberes eram escassos.

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Com os avanços científicos, esse panorama foi mudando. Houve intensa transformação em toda a sociedade desde o século XX, com a acelerada evolução das tecnologias, que também teve impacto na forma como morremos. A morte parece ter sido desnaturalizada.

As descobertas tecnológicas trouxeram a possibilidade de adiar a morte, favoreceram a construção da ideia de que a instituição hospitalar seria o lugar apropriado para morrer, tornando a última fase da vida um momento de grande solidão, acompanhado, sobretudo, por profissionais de saúde e de alguns cuidadores familiares, quando possível.

A morte mudou de lugar, deixa de ser pública e familiar e torna-se privada e individual. Há forte investimento tecnológico para combatê-la, correndo-se o risco de, nesse processo, não se considerar os aspectos subjetivos envolvidos nesse acontecimento.

Os afetos que surgem do confronto com a condição humana de finitude, permeiam todas as relações interpessoais. Pacientes, familiares e profissionais são tocados em sua subjetividade, pois, ao lidarmos com a morte do outro, experimentamos a consciência de nossa própria mortalidade. Essa experiência pode trazer em cada um desses sujeitos uma modificação de sua relação com o tempo, o seu tempo pessoal: desejos, planos, prioridades, adiamentos.

O contato com o limite da vida e a inquietude que ele provoca pode ter efeitos subjetivos interessantes, pois pode levar a questionarmos sobre como temos vivido a vida e nos responsabilizarmos por nossas escolhas. A aposta de trabalho da psicologia hospitalar é de que o contato com a finitude humana possa levar à busca de uma vida com mais sentido e qualidade. O que dá sentido e qualidade à vida? Essa é uma resposta que cada um de nós vai ter que formular.

*Psicóloga do Serviço de Psicologia do InCor.

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