Sou um sobrevivente, graças a Deus!

Donizetti, 49 anos, vítima da silicose, é o paciente de transplante de pulmão do InCor com maior tempo de vida pós-cirurgia

17/08/2017 | 16:26

Areia de sílica – Foto: Shutterstock

O paciente de transplante de pulmão é portador de doença grave. Entre as doenças que levam à indicação dessa cirurgia estão enfisema, fibrose de pulmão, fibrose cística e hipertensão pulmonar. O órgão, em geral, não funciona mais, e a pessoa tem uma qualidade de vida péssima, além de uma expectativa de sobrevivência inferior a três anos se não fizer o transplante. A sobrevida pós-transplante é sempre uma incógnita. Depende de muitas variáveis. Donizete Aparecido Costa, de 49 anos, é o paciente de transplante de pulmão do InCor com maior tempo de vida pós-cirurgia. Ele foi submetido ao procedimento em setembro do ano 2000, seis anos depois de receber o diagnóstico de silicose.  Leia sobre o que é silicose aqui. Lá se vão 17 anos, um tempo em que viveu para ver as duas filhas crescerem, ter mais um filho e levar uma vida sossegada no interior de São Paulo, onde foi atrás de respirar um ar melhor e correr menos risco de infecção. É de onde ele conta ao Minha História, por telefone, como foi sua experiência: “Sou um sobrevivente, graças a Deus”.

Donizete Aparecido Costa, de 49 anos – Foto: arquivo pessoal

Em 1986 eu comecei em uma empresa de jateamento de areia em São Paulo. Trabalhei por três anos. Entrei em 1986 e saí em 1989. Tinha chegado de Catanduva e foi o primeiro trabalho que consegui. Eu jateava peças de metal, e como a empresa ficava em uma área residencial, o pó liberado no jateamento não podia ser jogado para fora. Então esse pó ficava retido, dentro da empresa. O pó era pesado e demorava um tempo, suspenso no ar, até assentar. A gente usava uma máscara normal, dessas de pano, de hospital, para se proteger da suspensão do pó. Depois que saí desse emprego passei a ter infecções. Fui tratado como tuberculose, porque o pulmão estava bem manchado e não fizeram uma investigação severa, então, tomei medicação para tuberculose durante oito meses. De nada adiantava e comecei a viver em internações, que duravam 20, 30 dias.

Já estava na TV Globo, era supervisor de segurança a essa altura. Primeiro fui auxiliar. Fui promovido a supervisor geral em 1994. A partir do final de 1994, começo de 1995, que passei a sentir os sintomas. Eu tinha dificuldade de respirar e pegava infecções com facilidade. Foi quando me encaminharam para o Dr. Rafael Stelmach, do InCor, que depois de alguns exames constatou a silicose. Foi ele que me encaminhou para a equipe de transplante do InCor.

Minha chance de sobreviver à próxima infecção era de 3% no estado em que estava o meu pulmão, os médicos da equipe me disseram. Por isso, eu deveria fazer o transplante. Foi um choque para mim a notícia porque tinha minhas duas filhas, uma de seis e outra de três anos. Mas fui pra fila com fé, pedindo muito a Deus que intercedesse por mim. Fiquei três meses na fila de transplante até ser chamado. O médico me ligou às 23h40min do dia 8 de setembro do ano de 2000, e o mundo veio abaixo. Vou ou não? Será que daria certo? Como pedi a Deus o transplante, e ele estava me respondendo, peguei um ex-cunhado meu e fui pro InCor. Morava na zona leste, em São Mateus, sabia de cor o caminho, mas demorei na despedida das minhas filhas. Fiquei olhando as duas, dormindo, queria levar aquela última imagem, pensando que talvez não voltasse. Comecei a chorar muito, olhando pra elas, como se fosse uma despedida e quase não cheguei a tempo para a cirurgia no InCor.

Se não me engano foram umas 15 – 16 horas que durou o transplante. Fizeram a troca do pulmão que estava mais danificado no dia 9 de setembro de 2000. Quando cheguei ao centro cirúrgico para a operação uma equipe enorme de médicos (muitos, residentes) veio para cima de mim, olhando. Lembro-me de uma médica que começou a chorar do meu lado. Senti ali uma presença muito forte de Deus e peguei na mão dela e disse: “Doutora. pode ficar tranquila que eu vou acordar e agradecer por tudo que vocês fizeram por mim”.

Eu me emociono até hoje ao me lembrar dessa hora! A cirurgia foi feita em um sábado, de madrugada. Acordei domingo, à tarde, entubado e com dor, me sentindo uma marionete. Lembro que fiquei uns dias entubado. Depois que me desentubaram continuei sentindo muita dor. Quando comecei a caminhar, com auxílio das enfermeiras, tinha morfina do meu lado, no dreno, que na verdade eram dois, que apelidei de Totó e Pitoco. Sempre fui uma pessoa alegre, então, arrumava momentos pra ficar feliz mesmo nas dores e fazer com que as pessoas do meu lado pudessem sorrir. Se não me engano fiquei 15 dias na UTI, antes de ir para o quarto com os drenos e todo o processo de medicação.

Tive que tomar muita coisa para meu corpo não rejeitar o órgão. Muito corticoide e imunossupressor, entre outras coisas. Lembro que vinha um copo cheio de remédio para eu tomar. Passaram-se uns 25 dias e tive alta e fui para casa, todo machucado e dolorido. Uma semana depois voltei pra UTI novamente. O pulmão parecia um balão inchado e tiveram de abrir e costurar de novo e colocar os drenos e fiquei mais uns 20 dias na UTI. Tive uma hérnia de pulmão, me disseram os médicos. Eles suturaram o tórax, aproximaram as costelas e elas se afastaram — às vezes isso acontece –, e o pulmão passou a empurrar a pele e formou o inchaço. O problema foi sanado após essa segunda cirurgia. Foi nessa mesma ocasião que saiu a minha aposentadoria por invalidez. Continuava morando em São Paulo. Mas não saia em público. Era um tabu porque eu era o primeiro transplantado de pulmão que estava sobrevivendo mais de um ano Tudo em mim era um experimento novo e tinha de seguir certinho todos os procedimentos que os médicos recomendavam: tomar os medicamentos todos e evitar contato para não pegar vírus e infecções.

Eu me divorciei ainda morando em São Paulo, durante a doença. Casei de novo depois do transplante e em 2003 nasceu meu menino, o que considerei mais uma benção de Deus, porque já tinha duas meninas. Para ter uma qualidade de vida melhor vim com meus filhos para o interior. Estou morando na cidade de Lins. São Paulo é bom em termos de trabalho, mas, infelizmente, é uma cidade muito poluída para quem tem problemas pulmonares. Hoje eu tomo menos remédio, em média oito comprimidos por dia. E vou a cada quatro meses fazer checagem no InCor. Faço uma bateria de exames porque eu tive apenas um pulmão transplantado, o do lado direito. O do lado esquerdo ainda tem silicose, que está controlada com medicamentos. Eu levo uma vida bem regrada, tranquila, para que não tenha problema. Meu filho menor, hoje com 13 anos, mora comigo. Minhas filhas também moravam comigo, mas agora estão em São Paulo. A de 19 anos estuda jornalismo; a de 23 anos está casada e tem uma filha de dois aninhos. Já sou vovô.

Agora comecei a fazer palestras sobre a importância da doação de órgãos. A última foi em Rinópolis, na prefeitura. Estamos aguardando outras aparecerem pra gente poder testemunhar e dar uma perspectiva de vida melhor para as pessoas que estão na fila de transplante ou para os que já fizeram, porque eles ficam decepcionados quando é falado que a sobrevida de um transplante pulmonar varia de 6-7 anos a no máximo dez anos. Pode não ser assim para todo mundo, eu digo, porque estou aqui há 17 anos, faço 49 anos dia 27 de agosto e estou querendo viver bem mais.


Um pó fino, de cor branca

A sílica é um dos óxidos mais abundantes na crosta da terra. Ocorre na forma de pedra, areia, quartzo e é utilizada como matéria prima ou insumo em uma variedade de setores produtivos: indústrias extrativas de minerais, britagem, moagem e de lapidação; nas indústrias de transformação como cerâmicas, fundições, fabricação de vidro, sabões, abrasivos, nas marmorarias e, ainda, em jateadores de areia, trabalhos com rebocos ou esmeril de pedra, escavação de túneis, cavadores de poços e atividades de artesanato e de artes plásticas.

A silicose é a doença provocada pela exposição ao pó de sílica. Aspirada durante atividades realizadas sem proteção adequada (máscara especiais, com filtro), a substância se difunde no pulmão, atingindo seus tecidos e produzindo inflamação. Com o tempo, os tecidos pulmonares submetidos à reação inflamatória vão engruvinhando e repuxando, formando nódulos e cicatrizes ou fibroses, explica o pneumologista do InCor, Dr. Rafael Stelmach. É assim a doença leva a perda de flexibilidade do órgão e à incapacitação da função pulmonar.

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