Um ronco pode não ser só um ronco

Muitos não sabem, mas roncar pode ser um problema para a saúde, de apneia obstrutiva do sono

11/12/2017 | 14:18

A apneia obstrutiva do sono é caracterizada por paradas respiratórias recorrentes durante o sono. Ela acontece por causa do relaxamento da musculatura da garganta que fecha e obstrui a passagem de ar. O ronco é o sinal clínico de vibração da garganta por dificuldade da passagem de ar. Quem tem apneia do sono produz um ronco alto e irregular. Durante o processo ocorre queda progressiva do oxigênio do sangue, e a pessoa sai do problema com um micro despertar, quando o tônus da musculatura da via aérea superior se restabelece e ela volta a respirar. Na maior parte dos casos, a pessoa volta a dormir e nem percebe que acordou por alguns segundos.

O processo se repete várias vezes durante a noite e, tipicamente, passa despercebido por quem padece desse mal. O problema que incomoda os outros pelo barulho do ronco pode não ser uma coisa simples, no entanto, se indicar apneia do sono, que tem relação com doenças cardíacas.

Imagem da via aérea superior mostrando região muito estreita propensa ao colapso durante a noite (linha amarela).

Apneia e doenças cardíacas

Faz 20 anos que especialistas do InCor estudam a relação entre a apneia do sono e a doença cardiovascular. Como conta o Professor Doutor Geraldo Lorenzi, diretor do Laboratório do Sono do InCor, há três mecanismos pelos quais a apneia do sono pode causar a doença cardiovascular:

1- Hipoxia intermitente: a pessoa para de respirar, e o nível de oxigênio no sangue cai e volta a subir quando ela volta a respirar. Esse é o principal mecanismo pelo qual a apneia do sono leva à doença cardiovascular. Ele provoca variações de oxigênio e estresse oxidativo que podem, por exemplo, contribuir para hipertensão arterial sistêmica e risco aumentado de acidente vascular cerebral.

2- Fragmentação do sono: os múltiplos episódios de apneia terminam com um microdespertar, gerando um estresse para o organismo que contribui para aumento da atividade simpática.[1] Os pequenos despertares que ocorrem, além de impedir um sono profundo e reparador, contribuem para alterações metabólicas, como, por exemplo, a resistência à insulina.

3- Geração de pressão intratorácica negativa: quando a pessoa tenta respirar e a garganta está fechada, cria-se uma pressão dentro do tórax que dificulta a saída do sangue do coração. O que produz um estresse mecânico para o coração.

Fatores de risco

A apneia do sono é tremendamente comum. Um estudo feito na cidade de São Paulo estimou que um a cada três adultos teria apneia do sono. Outro estudo recente, realizado entre 500 pacientes do InCor, onde os fatores de risco são mais comuns, a prevalência estimada de apneia do sono foi de 50%%. Um dos fatores de risco mais comuns de apneia é a obesidade. A deposição de gordura não acontece só na barriga, mas também no pescoço, contribuindo para uma anatomia com maior tendência ao estreitamento da passagem de ar. Esse mecanismo é particularmente comum nos homens, mas as mulheres também têm chance de desenvolvê-lo e de ter apneia do sono depois da menopausa.

Crianças também podem ter apneia por causa de amígdalas e adenoide aumentadas. Outro fator de risco são as alterações craniofaciais. Pessoas com o queixo mais para trás, por exemplo, não têm espaço que contemple inteiramente a passagem de ar para a garganta. O que leva à especulação de que a apneia do sono é comum em humanos por conta da evolução. “Se lembrarmos dos nossos primos macacos, eles têm o queixo para frente (prognata). Nós dominamos o fogo e a mandíbula foi projetada pra trás. E a língua não tem pra onde ir!”, explica Lorenzi.

Efeitos da apneia

A apneia do sono pode causar sono fragmentado e não reparador, sonolência diurna, perda de qualidade de vida e problemas cardiovasculares. A consequência mais bem estudada da apneia é a hipertensão arterial sistêmica. Quando investigados pelo InCor, 77% dos pacientes com hipertensão resistente (aquela em que nem os remédios conseguem controlar a pressão arterial) tinham apneia obstrutiva do sono. Ela é muito mais comum do que se imaginava. Outros estudos do InCor mostram que a apneia tem relação com a aterosclerose, uma vez que o problema está associado à inflamação das artérias. Por isso é muito importante diagnosticar e tratar o problema.

Escala de sonolência de Epworth: qual a sua chance de cochilar em 8 situações 0, 1, 2 ou 3, que equivalem a nenhuma, pequena média ou grande probabilidade. Se você pontuar mais do que 10, provavelmente você tem sonolência diurna excessiva. As causas frequentes são você estar dormindo menos do que deveria (privação de sono) ou seu sono é de má qualidade –nesse caso, a apneia do sono pode ser a causa.

Tratamentos atuais

O tratamento símbolo da apneia do sono é a máscara de CPAP, sigla que vem do inglês Continuous Positive Airway Pressure. Trata-se de um pequeno compressor acoplado a uma mascara nasal que joga ar comprimido na garganta impedindo que ela se feche. Seu princípio pode ser comparado ao da pressão que se mantém no pneu do carro. Se o paciente dormir com a mascara todas as noites a apneia é simplesmente eliminada. É impressionante como muitos pacientes se adaptam bem à mascara, pois passam a dormir muito melhor.

O segundo tratamento mais comum é a placa de avanço mandibular, feita por dentistas, que também deve ser usada durante o sono. Ela traciona o queixo pra frente, aumentando o espaço retrolingual e liberando a passagem do ar. Esse tratamento é, em geral, recomendado para quem tem apneia leve a moderada. Uma pesquisa realizada no InCor descreveu uma nova forma de tratamento, baseada em exercícios da garganta orientados por fonoaudiólogos. Os exercícios, voltados para a musculatura que dilata a faringe, são bem indicados para quem tem ronco primário (ronco sem apneia do sono) e apneia do sono leve a moderada.

Existem várias medidas simples que também podem ajudar, incluindo perda de peso, exercício físico, dormir de lado — de barriga para cima a língua tende a cair para trás –, evitar consumir álcool à noite – ele relaxa a musculatura e contribui para o colapso durante a noite –, e elevar da cabeceira da cama. São iniciativas simples, mas, que podem fazer a diferença.

Mecanismo de ação do CPAP: a máscara transmite pressão na região posterior da garganta, mantendo a garganta aberta durante o sono.

 

Tecnologia de diagnóstico

O InCor tem um dos centros pioneiros no estudo da relação entre coração e distúrbios respiratórios do sono e conta com um laboratório para fazer exames especializados de polissonografia. Como a apneia do sono é muito mais comum do que se imaginava, os quatro leitos disponíveis no laboratório do sono são insuficientes para atender as necessidades de diagnóstico do problema. Considerando esse contexto, os pesquisadores do laboratório têm procurado desenvolver outros métodos para facilitar o acesso ao diagnostico, como os sistemas simplificados para monitorar a respiração. O paciente dorme em casa e, no dia seguinte, leva o equipamento para a equipe analisar o que ficou registrado.

O próximo passo desse monitoramento será um sistema ainda mais simples que permite o registro no celular. Uma empresa startup voltada para diagnósticos médicos está desenvolvendo um modo de analisar a apneia através de um oxímetro conectado ao aparelho via Bluetooth. No futuro, talvez seja possível fazer um exame complexo como a polissonografia com o auxilio do celular. O objetivo do laboratório do sono é utilizar a tecnologia para facilitar o acesso ao diagnostico da apneia do sono. A maior parte dos pacientes, não só no Brasil, mas no mundo, seguem sem diagnóstico atualmente.

 


[1] Hormônio secretado pela medula das glândulas suprarrenais, atua na elevação da pressão sanguínea, acelerando o ritmo cardíaco e a produção de respostas fisiológicas rápidas do organismo aos estímulos externos


Referência Bibliográfica

  1. G Lorenzi Filho et al, Are we missing obstructive sleep apnea?- Rev Port Pneumol. 2017;23(2):55-56

  2. Costa LE, Uchôa CH, Harmon RR, Bortolotto LA, Lorenzi-Filho G, Drager LF. Potencial underdiagnosis of obstructive sleep apnoea in the cardiology outpatient setting. Heart. 2015;101:1288-92

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