Voltando a bater normal

O tratamento intervencionista com ablação por cateter, técnica indicada para os casos de arritmias, mudou a vida dos pacientes

10/08/2017 | 19:22

Foto: Shutterstock

Dotado de um mecanismo sincronizado, o coração depende de um estímulo elétrico para bombear o sangue por meio de contrações (sístoles) e relaxamentos (diástoles). Quando a formação desse impulso elétrico, ou a sua condução, ficam desreguladas, a pessoa passa a sofrer de arritmia cardíaca. A presença de arritmias é relativamente comum e conhecida na população e podemos dividi-las em dois grandes grupos: as síndromes bradicárdicas e as taquicárdicas. No primeiro, problemas na formação ou condução do impulso elétrico levam a frequência cardíaca a ficar muito baixa,  dificultando a oxigenação cerebral e de outros órgãos. Nas taquicardias, ocorrem como que disparos de focos não pertencentes ao sistema de condução normal ou formam-se espécies de curto-circuitos no coração, que aumentam a frequência dos batimentos. O coração dispara, parece que vai sair pela boca.

A principal forma de corrigir o problema da síndrome bradicárdica é o implante do marca-passo artificial, um aparelho que regula a frequência dos impulsos elétricos. O tratamento das chamadas taquiarritmias pode ser clínico, por meio de medicamentos antiarrítmicos, ou intervencionista: cirúrgico ou por ablação com cateteres. Apesar de ser um fenômeno comum, o tratamento das arritmias cardíacas, definitivo, com intervenções, é relativamente recente dentro da cardiologia. Até o final dos anos 1970, por exemplo, quem tinha taquicardia só podia ser tratado com medicamentos. Os primeiros procedimentos cirúrgicos datam de 1979. Mas, o tratamento dessa disfunção cardíaca modificou-se radicalmente na década de 1990, quando foi descrita a técnica de ablação por cateter, efetiva e menos invasiva que a cirurgia de peito aberto.

Evolução do tratamento ablativo

A tecnologia de inserção de cateteres, por meio de veias, até o coração, foi utilizada, primeiro, para diagnosticar o tipo de arritmia dos pacientes. Os eletrofisiologistas (médicos especialistas em arritmias) analisavam o sistema elétrico do coração usando cateteres com eletrodos, que captavam os sinais elétricos. Identificavam assim a região que provocava a arritmia e o paciente era encaminhado para cirurgia. No centro cirúrgico, faziam outro mapeamento para confirmar o local de origem, antes de o cirurgião cauterizá-lo. O procedimento exigia abrir o tórax do paciente para queimar os pontos que desestabilizavam o ritmo.

Nos últimos vinte anos, com o desenvolvimento da tecnologia, os cateteres começaram a ser empregados não somente para o diagnóstico, mas também para cauterizar as regiões arrítmicas. No início, a cauterização era feita com energia elétrica. A ponta do cateter emitia uma espécie de “choque”. Apesar de funcionar bem, o processo oferecia mais risco porque provocava uma pequena explosão ao liberar a energia na ponta do eletrodo. Por essa razão, o procedimento, chamado de fulguração, foi abandonado, e outras formas de energia passaram a ser estudadas.

Desenvolveu-se então a técnica por energia de radiofrequência, a mesma empregada há muitos anos no bisturi elétrico. Para que os cateteres pudessem levar uma frequência capaz de cauterizar o tecido cardíaco sem provocar coagulação do sangue, um efeito indesejável, foram necessárias pesquisas e ajustes nessa fonte de energia.

Hoje, nem todas as arritmias são tratadas assim. Mas a tecnologia mudou o rumo do tratamento das taquiarritmias, como são chamadas, e muitas delas passaram a ser resolvidas definitivamente por ablação. O procedimento é menos invasivo e a morbidade muito baixa — dependendo da doença de base do paciente. O tempo de recuperação do pós-operatório passou a ser de um dia, quando, antes, na época da cirurgia, era de uma semana, no mínimo, ou até de um mês. Sem cicatriz e com riscos desprezíveis de complicações graves, o método mudou a vida dos pacientes.

A arritmia mais frequente no idoso

Não existem dados epidemiológicos de todo o território nacional informando se a ocorrência de arritmias está aumentando ou não em nosso meio, mas o interesse da população pela doença é cada vez mais notável, afirma o cardiologista Mauricio Scanavacca, diretor da Unidade Clínica de Arritmias e Avaliação de Marca-passo do InCor. As arritmias podem ser congênitas, geneticamente determinadas ou adquiridas. As adquiridas têm aumentado em incidência e prevalência, acrescenta o médico. Podemos atribuir esse fato ao aumento da sobrevida da população mundial.

Entre os indivíduos mais idosos, a fibrilação atrial é o tipo de arritmia mais frequente e mais diagnosticada, sendo aparentemente uma doença do envelhecimento. Antes dos 40 anos, menos de 1% da população mundial apresenta o problema. Já aos 80 anos, 10% são diagnosticados. Hipertensão, diabetes, doenças na válvula mitral, sobrepeso e apneia do sono são fatores que aumentam muito a sua incidência. O tratamento para esses casos pode ser a ablação, mas o procedimento é mais complexo quando o paciente apresenta outras doenças concomitantes e a arritmia já se tornou crônica. Por isso, recomenda-se que todos os indivíduos façam avaliações cardiológicas de rotina, não somente para prevenção mas também para receber o tratamento mais precocemente, com melhores resultados e menor risco.


Referência Bibliográfica

  1. Scanavacca, M – Novas Perspectivas do Tratamento das Arritmias Cardíacas e sua Aplicação no Brasil New Perspectives in the Treatment of Cardiac Arrhythmias and Their Application in Brazil, Arq Bras Cardiol 2012;99(6):1071-1074

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